Relato de uma jovem com deficiência, estudante de jornalismo que precisou fazer um trabalho acadêmico na sessão ordinária do dia 24 de março 2026.
Minha relação com a Câmara Municipal de Cachoeiro de Itapemirim não começou na universidade. Antes mesmo de iniciar a formação em Jornalismo, eu já ocupava aquele espaço como ativista pelos direitos das pessoas com deficiência desde 2018. E, o acesso sempre foi um desafio.
Durante anos, a principal reivindicação do movimento naquele espaço era básica: um elevador que garantisse o direito de ir e vir com dignidade. A resposta vinha em forma de promessas recorrentes, mas sem ações concretas.
Em 2024, pareceu que finalmente algo iria mudar. Foi inaugurado o Elevador Ricardo Ferraz, homenagem a um dos pioneiros da luta por inclusão na cidade no ano de 1981. Participei da cerimônia com esperança real de que, dali em diante, minha experiência na Câmara seria diferente.
Não foi.
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| Inauguração do Elevador Ricardo Ferraz da Câmara Municipal de Cachoeiro de Itapemirim |
No dia 24 de março de 2026, voltei ao local, dessa vez como estudante, com o olhar atento às dinâmicas da esfera pública e do Estado. Mas antes de qualquer análise teórica, a realidade se impôs de forma prática e frustrante.
O elevador não funcionava.
Ainda que parecesse uma infeliz coincidência, descobri que não. “Toda semana dá defeito”, me disse um homem que passava pelo local. Sem alternativa, pedi ajuda nas escadas, mas se negaram a me ajudar. Precisei desmontar a cadeira de rodas, dirigir até outra entrada. Quando finalmente encontrei um acesso possível, a única rampa estava bloqueada por um carro.
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| Jovem com deficiência é impedida de acessar Câmara Municipal de Cachoeiro de Itapemirim por falta de acessibilidade |
O resultado foi chegar atrasada, exausta e com uma sensação difícil de ignorar: a de não pertencimento. Como exercer cidadania quando o próprio acesso ao espaço público é negado?
A composição da Casa revela ausências. Entre 19 vereadores, apenas uma mulher - Ednalva Marin, suplente empossada do partido Podemos. A sub-representação feminina é um reflexo direto de quem ocupa os espaços de poder na cidade.
A estrutura física do plenário também evidencia desigualdades. A mesa diretora fica em posição elevada, enquanto vereadores e público são separados por uma barreira de vidro. A acessibilidade comunicacional falha: não há intérprete de Libras presente, apenas uma pequena janela na TV, de difícil visualização.
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| Interpretação em LIBRAS de difícil visualização na Câmara Municipal de Cachoeiro de Itapemirim |
Recebi um pedido de desculpas do presidente da Câmara (Alexandre Maitan,) que classificou o problema do elevador como pontual. Já nas redes sociais, a equipe institucional respondeu de forma adequada. Mas a repercussão também revelou outro lado: fui alvo de ataque pessoal de um funcionário, que desqualificou minha denúncia.
A experiência escancara uma contradição difícil. A Câmara Municipal se apresenta como espaço democrático, mas ainda falha em garantir condições mínimas de acesso, participação e inclusão para pessoas com deficiência.



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