Deixa Acontecer - novo filme produzido pelos Estúdios Globo - me encheu expectativas desde o anúncio de elenco. O fato de ter duas protagonistas com deficiência interpretadas, de fato, por duas atrizes com deficiência me causou uma primeira impressão muito boa.
Após finalmente assistir, pontuo que a construção de Marina (Paola Antonini) enquanto protagonista é algo que me agrada. Ela tem sonhos, história, vida social e amigas, para além de uma deficiência e pais super protetores. Quer cursar medicina e está disposta a enfrentar conflitos para concretizar seu sonho.
Os personagens de Camila Morgado e Danton Mello colaboram para a identificação de grande parte dos pais de pessoas com deficiências, no Brasil, que carregam uma característica em comum: a superproteção. Os pais de Marina a impedem de se matricular em medicina na federal do Rio de Janeiro, mesmo que tenha passado, pois não presumem que a filha com deficiência tenha capacidade de morar sozinha.
No entanto, Marina contraria o achismo dos pais e parte para a cidade maravilhosa com as amigas Pri (Klara Castanho) e Thayz (Laís Lage). A dinâmica entre as três é muito divertida e as deficiências de duas delas se tornam apenas uma dentre as tantas características dessas meninas-mulheres.
Protagonistas do filme Deixa Acontecer
Foto: Angélica Goudinho
Destaque para Laís Lage que brilhou na personagem cômica e decidida que é a Thayz. Trouxe, de forma leve, divertida e muito didática, reflexões sobre audiodescrição, acessibilidade fake e capacitismo ao longo da trama.
Mas a principal reflexão que o longa levanta é o fato da deficiência servir de comoção nacional quando um cara sem deficiência, João Mendes (João Vitor Silva), resolve manter um namoro falso com Marina para melhorar sua reputação. Já que, está muito presente na nossa sociedade a ideia capacitista de que pessoa sem deficiência que se relaciona com pessoas com deficiência é digna de louvor. Como se a deficiência fosse um fardo para quem está ao lado.
É justamente ao expor essa lógica que Deixa Acontecer encontra sua maior força. Sem transformar suas protagonistas em heroínas inspiradoras ou vítimas permanentes, o filme apresenta personagens com deficiência vivendo afetos, conflitos e descobertas comuns à juventude. Ainda que recorra a alguns clichês típicos das comédias românticas, o longa contribui para ampliar a presença de pessoas com deficiência em narrativas nas quais elas podem, finalmente, ocupar o centro da história.
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